sábado, 27 de julho de 2013

Jeremy, o Perverso - Capítulo III - Vozes



Eram passos descompromissados, porém, vigorosos.  Sem destino, deixava-se guiar pelo farfalhar das folhas secas que abaixo de si, ditavam o som, o ritmo e a vida na mórbida avenida solitária.

Preciso fosse, caminharia eternamente na noite agradável que se apresentava. A brisa noturna era serena, e o convidava a ir mais longe, enquanto seus olhos almejavam o lugar incerto que seus pés buscavam.

A exaustão fora sua parceira naquele longo dia, e agora, de braços dados à solidão, mergulhava sua mente e alma no silêncio da noite. Verdade seja dita, as semanas arrastaram-se até aquele instante. Labirintos mentais que se debruçavam na dúvida, na insegurança e no cansaço.

Aqueles passos representavam não apenas a volta ao lar, mas também o rompimento de barreiras que se mostravam até então, intransponíveis.

A mente humana, pensava, era um caminho perigoso, com infinitas direções. Idas e vindas que se alternavam entre o doce sabor de fantasias jamais presenciadas, ao amargo sabor das memórias de tempos inglórios. Qual fosse o caminho a seguir, com ou sem obstáculos, almejava a paz interior.

Rei Jeremy, o Perverso, estivera tempo demais nos caminhos opostos de sua mente, e nada importava, apenas queria chegar ao destino que sempre desejara. A sanidade. 
 
Passos descompromissados, rumando a lugar algum.

[...]

Ela se vê acuada. Sorri freneticamente. A razão lhe diminuindo, então sorri amargurada. Ao fundo, a música alta dita o ritmo de seus pensamentos confusos. Sozinha, dança em frenesi, gira em espiral, e deixa-se envolver-se na armadilha de seus pensamentos.

Palavras fortes, indigestas, cativantes.

Cercada, vê-se acuada na armadilha criada, e como uma pessoa ingênua, deixa-se prender nas teias invisíveis. 

Nunca fora dada a preocupações desnecessárias. Nunca se prendera em superstições zelosas, ou sentimentos que a aprisionassem. Seu coração era apenas seu, e ninguém ousaria a tentar tira-lo.

Porém, quanto mais o tempo mergulhava em seu cotidiano sombrio, mais atraída sentia-se pelas palavras de Jeremy. Rodopiou novamente, e mergulhou em suas lembranças.

[...]

Observava curiosamente, o homem que se postava inquieto a sua frente. Era um homem com uma beleza exótica. Olhos castanhos, e cabelos negros bagunçados pelo vento, estatura mediana.

Fitava olhos que transmitiam desespero, dor, e culpa. Mas também havia um brilho intenso, puro. Uma magia que misturava experiência e juventude, bondade e ferocidade, amor e ódio. Um olhar perverso.
 
Então, como nada mais pudesse surpreendê-la, Jeremy quebrou o silêncio:

 - Meus pensamentos rumam de encontro ao desconhecido –  dissera ele, receoso no início, mas conforme encontrava a confiança necessária, as palavras se tornavam firmes, voluntariosas e mortais – Sou apenas um reflexo do que já fui, mas agora, diante de ti, quando olho em seus olhos, sinto-me livre, e todo o temor se transforma no desejo pelo impossível.

Elise ouvira impassível, estática, e quando tudo parecia consumado, ele prosseguiu:

- Sei que não sou perfeito, e estou longe de ser. Sou amaldiçoado. Mas nada importa quando estou diante de ti. Você me completa, e um dia, sei que farei parte de ti, como você faz parte de mim. Uma parte ideal, algo que há muito perdi e todos os dias almejo encontrar. Algo que está além da vida e da morte.

Um dia...

Então seu mundo se desfez. Apenas o silêncio falou por ela.

[...]
De volta ao presente, a música havia cessado, e Elise olhava para o horizonte, paralisada. O êxtase transformara-se em autorreflexão.

Sempre fora uma mulher orgulhosa. Apaixonada pela vida, jamais se deixara levar por sentimentos que pudessem se opor à liberdade conquistada. Era sua essência.

O coração que agora pulsava no seu ritmo normal era apenas seu, e ninguém exceto a vida, poderia rouba-lo. Mas não podia dizer o mesmo de sua mente. Quanto mais o silêncio se aprofundava no tempo, mais instigava-se a pensar em Jeremy. 
 
Uma decisão deveria ser tomada.

Minutos depois, sem hesitar, deixava para trás suas canções, seus pensamentos, e desatava a correr pelas ruas da cidade.

Engolida pela noite, correu para o desconhecido. Era a razão falando por si.

[...]

Visivelmente cansado, Jeremy havia, finalmente retornado para casa. Após o banho, fez uma leve refeição, e recostou-se em sua poltrona.

A caminhada não lhe trouxera nada, exceto o esgotamento físico. Com seu corpo e mente em sintonia, não tardou para que o sono o atingisse e ali mesmo, recostado em sua poltrona, adormeceu.

Para um homem que constantemente vivia em atritos com sua própria personalidade, parecia em paz.

 [...]

As primeiras câimbras surgiram quando se deparou com o que procurara a noite toda. Um pequeno sobrado. Uma bela moradia, com uma sacada no andar acima, direcionada para a rua, uma porta de carvalho à frente, e um pequeno jardim, iluminado por dois pares de luminárias antigas, que seguiam o padrão encurvado da escada que dividia o gramado até a porta de entrada.

Elise respirou fundo, sentia seu coração querer projetar-se para forma do corpo. Reunindo as energias, caminho pela escada, e frente à porta, tocou a campainha.

Duas, três, quatro vezes. Nenhum sinal de vida se manifestara no duplex, embora claramente, via-se a iluminação do segundo andar através da grande porta de vidro de acesso à sacada.

Cansada, sentiu uma onda de temor tomar conta de seu ser. Estupidez poderia definir o sentimento que se espalhava em seus pensamentos. Quando se preparou para partir, a grande porta de carvalho rangeu, o brilho das luminárias pôde ser visto refletido no olhar do homem que se postava surpreso à sua frente.

Sem hesitar, projetou-se a frente, instigada pelo momento. Apenas o céu negro e o silêncio como testemunhas. Nenhuma palavra dita. Apenas o abraçou. Forte, caloroso, terno. Um abraço para expurgar os demônios que insistiam em atormentá-la.

Naquele momento, sentiu-se reconfortada. Eram fortalezas que a abraçavam gentilmente, defendendo-a de todo e qualquer perigo. Fechou os olhos e recostou delicadamente o rosto no peito de Jeremy, e sentiu. O bater forte, incontrolável de um coração cheio de pureza. 

Um coração nobre.

Elise abriu os olhos, e se afastou alguns centímetros, sem, contudo, desvencilhar-se daqueles braços. Então o encarou. Olhos nos olhos.

Por noites, iria reviver em suas lembranças aquele momento. Um rosto jovial, sereno, em paz. Uma aura envolvendo-o, protegendo-o de qualquer infortúnio.

Com toda sua delicadeza de menina-mulher, elevou suas mãos até o rosto de Jeremy, e beijou-o. Um beijo caloroso, dócil, apaixonado.

Era o coração falando por si.

[...]

Os sinos da catedral anunciavam a meia-noite. Ecoando por toda a cidade, eram os últimos e longos embalos estridentes na silenciosa noite.

Cessaram-se os beijos. Elise novamente acariciou o rosto de Jeremy. Este, sorriu, ainda tímido, mas extremamente feliz.

Ela, por sua vez, o encarou, e novamente, a razão falou por si:

- Jeremy – sua voz era delicada, apenas um sussurro quase inaudível – Em algum momento, não importa o tempo, a razão, sei que estarei pronta para ser quem você deseja – procurou as palavras certas, as mesmas que havia encontrada ainda em sua casa, e prosseguiu – Mas ainda não estou pronta, meu bem. Um dia, talvez... – então as palavras morreram em sua boca sem serem ditas.

- Mas... – tentou argumentar Jeremy, confuso.

Elise o beijou novamente, e se afastou.

- Um dia... – gritou Elise por fim, e partiu.

[...]

Recostado no batente da porta, Jeremy sentiu-se perturbado, sem respostas, reações, sem necessariamente entender o que havia acontecido.

Fosse a exaustão, fosse a confusão mental, não importa. Deixou que Elise partisse, e sequer fez menção de acompanha-la.

Um dia – pensou, ainda confuso, enquanto fechava a porta atrás de si.

[...]

As horas eram eternas naquele momento. Deitada em sua cama, virava-se de um lado para o outro, mas o sono sequer chegou até ela.

Com pensamentos a mil, revivia mentalmente aquele abraço, aquele beijo.

Sacrifícios eram necessários. Palavras ditas selavam destinos. Não importava. Não havia glórias nas palavras anteriormente ditas. Não haveria louros à se conquistar, espólios ou glórias. Um sacrifício, ainda que investido pela razão, sempre haveria de ter o gosto metálico, amargo e indigesto da derrota.

Infeliz, Elise saboreava o gosto de suas palavras nesse momento. Não era a razão, era o medo. O medo de atrelar-se ao desconhecido.

Naquela noite, suas lágrimas escorreram até que os primeiros raios do sol romperam pela janela do quarto.

Por fim, quando a cidade acordou de seu leito adormecido, o cansaço apoderou-se de sua mente, e tudo se tornou escuridão.

Escuridão, angústia e sonhos vazios.

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