Jogado à mercê de sua insanidade, Jeremy deixou-se
levar pelo pânico, e sem energias, perdeu os sentidos. Sonhou com a desolação
que destruíra seu mundo. No fim, a morte o encarava com olhos frios e noturnos.
Seu grito ecoou por quarteirões.
[...]
Fragmentos de
cristais rubro-espelhados. Tortuosos caminhos desvirtuados por um choque de
realidades. Faça-se o caos, mas não se esqueça. Jamais se esqueça de mim.
Fiz da sorte,
minha própria ruína. Durante semanas ou vidas inteiras, não sei dizer, me
tornei Deus de meu próprio universo. Criação através do caos.
Tempo imutável. Fragmentado pelas lembranças
inalteráveis. Mas se um dia me perguntar, quem sou eu, serei eu mesmo a
responde-la?
“Se - como
dissera Padre Callahan - uma palavra de mil sílabas”.
Serei grato,
um dia, por ter me tornado cria e criador, caça e caçador. Mas não serei o
mesmo. Não mais.
Bela mulher,
apenas me ouça. Sonhei alto, e ainda criança, almejei ser o homem no topo das
montanhas. Assassinei a criança com minha razão, e me perdi no labirinto do
coração.
Relutante coração partido, menina inquietante.
O menino no
topo das montanhas tornou-se o homem que pulou no abismo do desconhecido, e
fora beijado pela morte.
Minha querida!
Você e tão somente você, tem essa essência rara, e por rara, entenda-se por
beleza comum no Jardim dos Deuses. Caminhos opostos para pessoas que não se
conhecem, mas que são parte um do outro.
Apenas
mantenha esse sorriso encantador de menina-mulher enquanto eu não estiver por
perto, e se a sorte, destino ou qualquer outra palavra de mil sílabas possa
conspirar a meu favor, estarei ao seu lado.
Sou um
desconhecido que caminha entre o orgulho da sobriedade e a queda da insanidade.
Mas esteja
firme, não importa o tempo, a razão, o tempo. Seja meu porto-seguro, que um dia
encontrarei. Pois não há sensação mais pacificadora do que sentir o conforto de
sua presença.
Rolem os
dados, e que a roda da fortuna gire numa espiral de desejos e sonhos. Não
sucumbirei à escuridão enquanto guardar dentro de meu peito e de minhas
lembranças, o brilho vívido de seu olhar intrigante e hipnotizador.
Hoje, ofereço
a ti minha cicatrizes, para que um dia, possa vê-las curadas. Minha e tão
somente minha, bela Elise. Sinto-me grato, por tê-la, ao passo, que nada
conquistei, exceto seu sorriso dócil de mulher liberta.
"Se", palavras
de mil sílabas. "Tempo", palavra de infinitos fragmentos de vidas passadas.
Hoje, sou
apenas o guardião de presságios incertos, de destino desconhecido, mas meu
caminho trilhará sob luzes douradas de um vasto e límpido céu azil enquanto carregar
comigo a imagem do seu olhar.
Se um dia
pensar em mim, olhe para o topo das montanhas, e lá estarei. Velando por sua
segurança, e por sua felicidade. Mesmo que isso signifique o sacrifício de um
homem beirando à loucura instaurada numa mente confusa.
Minha razão
está defasada, mas ainda posso oferecer meu coração. Eis a verdadeira essência
do homem que sou.
Quando
terminar de ler estas palavras, não serei o mesmo. Sequer estarei por perto.
Distante,
isolado, ferido. Mas ainda serei parte de uma lembrança que minha mente possa apenas ter criado, mas sempre existirá um "se" para reconstruir com mil sílabas, um
significado para meu próprio mundo.
Um mundo que
governarei à minha maneira. Mas um rei não deve governar sozinho.
Esteja em paz,
enquanto busco a minha própria.
De todo
coração, e com amor, Jeremy.
[...]
Elise lera e relera as duas últimas frases escritas
à mão. Com seu coração sendo esmigalhado por sentimentos que jamais sentira, trouxera
a carta para próxima de seu peito, e suspirou.
Por longos meses, Elise tentara encontrá-lo a todo
custo, em vão.
Quando recebera a carta, Jeremy havia desaparecido
havia dois meses. Quando dois, tornaram-se seis, e seis tornaram-se doze meses, pensou que estivesse
morto.
Um ano havia se passado.
Não havia montanhas para se observar, mas ainda sim,
dia pós dias, elevava seus olhos em direção aos céus, e por instantes tinha certeza de que ele estaria
olhando por ela. Não importa onde estivesse, Rei Jeremy cumpriria sua
promessa.
Sorriu timidamente, tentando assimilar o golpe.
“Se”... Uma palavra de mil sílabas, mas de apenas um
significado:
O anseio de ter em seus braços, aquilo que renegou
quando tivera sua chance.