Eram passos descompromissados, porém, vigorosos. Sem destino, deixava-se guiar pelo farfalhar das
folhas secas que abaixo de si, ditavam o som, o ritmo e a vida na mórbida
avenida solitária.
Preciso fosse, caminharia eternamente na noite
agradável que se apresentava. A brisa noturna era serena, e o convidava a ir mais longe, enquanto seus olhos almejavam o lugar incerto que seus pés buscavam.
A exaustão fora sua parceira naquele longo dia, e
agora, de braços dados à solidão, mergulhava sua mente e alma no silêncio da
noite. Verdade seja dita, as semanas arrastaram-se até aquele instante.
Labirintos mentais que se debruçavam na dúvida, na insegurança e no cansaço.
Aqueles passos representavam não apenas a volta ao
lar, mas também o rompimento de barreiras que se mostravam até então,
intransponíveis.
A mente humana, pensava, era um caminho perigoso,
com infinitas direções. Idas e vindas que se alternavam entre o doce sabor de
fantasias jamais presenciadas, ao amargo sabor das memórias de tempos
inglórios. Qual fosse o caminho a seguir, com ou sem obstáculos, almejava a paz
interior.
Rei Jeremy, o Perverso, estivera tempo demais nos
caminhos opostos de sua mente, e nada importava, apenas queria chegar ao
destino que sempre desejara. A sanidade.
Passos descompromissados, rumando a lugar algum.
[...]
Ela se vê acuada. Sorri freneticamente. A razão lhe
diminuindo, então sorri amargurada. Ao fundo, a música alta dita o ritmo de
seus pensamentos confusos. Sozinha, dança em frenesi, gira em espiral, e
deixa-se envolver-se na armadilha de seus pensamentos.
Palavras fortes, indigestas, cativantes.
Cercada, vê-se acuada na armadilha criada, e
como uma pessoa ingênua, deixa-se prender nas teias invisíveis.
Nunca fora dada a preocupações desnecessárias. Nunca
se prendera em superstições zelosas, ou sentimentos que a aprisionassem. Seu
coração era apenas seu, e ninguém ousaria a tentar tira-lo.
Porém, quanto mais o tempo mergulhava em seu
cotidiano sombrio, mais atraída sentia-se pelas palavras de Jeremy. Rodopiou
novamente, e mergulhou em suas lembranças.
[...]
Observava
curiosamente, o homem que se postava inquieto a sua frente. Era um homem com
uma beleza exótica. Olhos castanhos, e cabelos negros bagunçados pelo vento,
estatura mediana.
Fitava olhos
que transmitiam desespero, dor, e culpa. Mas também havia um brilho intenso,
puro. Uma magia que misturava experiência e juventude, bondade e ferocidade,
amor e ódio. Um olhar perverso.
Então, como
nada mais pudesse surpreendê-la, Jeremy quebrou o silêncio:
- Meus pensamentos rumam de encontro ao desconhecido
– dissera ele, receoso no início, mas conforme encontrava a confiança
necessária, as palavras se tornavam firmes, voluntariosas e mortais – Sou
apenas um reflexo do que já fui, mas agora, diante de ti, quando olho em seus
olhos, sinto-me livre, e todo o temor se transforma no desejo pelo impossível.
Elise ouvira
impassível, estática, e quando tudo parecia consumado, ele prosseguiu:
- Sei que não
sou perfeito, e estou longe de ser. Sou amaldiçoado. Mas nada importa quando
estou diante de ti. Você me completa, e um dia, sei que farei parte de ti, como
você faz parte de mim. Uma parte ideal, algo que há muito perdi e todos os dias
almejo encontrar. Algo que está além da vida e da morte.
Um dia...
Então seu
mundo se desfez. Apenas o silêncio falou por ela.
[...]
De volta ao presente, a música havia cessado, e
Elise olhava para o horizonte, paralisada. O êxtase transformara-se em
autorreflexão.
Sempre fora uma mulher orgulhosa. Apaixonada pela
vida, jamais se deixara levar por sentimentos que pudessem se opor à liberdade
conquistada. Era sua essência.
O coração que agora pulsava no seu ritmo normal era
apenas seu, e ninguém exceto a vida, poderia rouba-lo. Mas não podia dizer o
mesmo de sua mente. Quanto mais o silêncio se aprofundava no tempo, mais
instigava-se a pensar em Jeremy.
Uma decisão deveria ser tomada.
Minutos depois, sem hesitar, deixava para trás suas
canções, seus pensamentos, e desatava a correr pelas ruas da cidade.
Engolida pela noite, correu para o desconhecido. Era
a razão falando por si.
[...]
Visivelmente cansado, Jeremy havia, finalmente
retornado para casa. Após o banho, fez uma leve refeição, e recostou-se em sua
poltrona.
A caminhada não lhe trouxera nada, exceto o
esgotamento físico. Com seu corpo e mente em sintonia, não tardou para que o
sono o atingisse e ali mesmo, recostado em sua poltrona, adormeceu.
Para um homem que constantemente vivia em atritos
com sua própria personalidade, parecia em paz.
[...]
As primeiras câimbras surgiram quando se deparou com
o que procurara a noite toda. Um pequeno sobrado. Uma bela moradia, com uma
sacada no andar acima, direcionada para a rua, uma porta de carvalho à frente,
e um pequeno jardim, iluminado por dois pares de luminárias antigas, que
seguiam o padrão encurvado da escada que dividia o gramado até a porta de
entrada.
Elise respirou fundo, sentia seu coração querer
projetar-se para forma do corpo. Reunindo as energias, caminho pela escada, e
frente à porta, tocou a campainha.
Duas, três, quatro vezes. Nenhum sinal de vida se
manifestara no duplex, embora claramente, via-se a iluminação do segundo andar
através da grande porta de vidro de acesso à sacada.
Cansada, sentiu uma onda de temor tomar conta de seu
ser. Estupidez poderia definir o sentimento que se espalhava em seus
pensamentos. Quando se preparou para partir, a grande porta de carvalho rangeu,
o brilho das luminárias pôde ser visto refletido no olhar do homem que se
postava surpreso à sua frente.
Sem hesitar, projetou-se a frente, instigada pelo
momento. Apenas o céu negro e o silêncio como testemunhas. Nenhuma palavra
dita. Apenas o abraçou. Forte, caloroso, terno. Um abraço para expurgar os
demônios que insistiam em atormentá-la.
Naquele momento, sentiu-se reconfortada. Eram fortalezas
que a abraçavam gentilmente, defendendo-a de todo e qualquer perigo. Fechou os
olhos e recostou delicadamente o rosto no peito de Jeremy, e sentiu. O bater
forte, incontrolável de um coração cheio de pureza.
Um coração nobre.
Elise abriu os olhos, e se afastou alguns centímetros,
sem, contudo, desvencilhar-se daqueles braços. Então o encarou. Olhos nos
olhos.
Por noites, iria reviver em suas lembranças aquele momento.
Um rosto jovial, sereno, em paz. Uma aura envolvendo-o, protegendo-o de
qualquer infortúnio.
Com toda sua delicadeza de menina-mulher, elevou
suas mãos até o rosto de Jeremy, e beijou-o. Um beijo caloroso, dócil, apaixonado.
Era o coração falando por si.
[...]
Os sinos da catedral anunciavam a meia-noite.
Ecoando por toda a cidade, eram os últimos e longos embalos estridentes na
silenciosa noite.
Cessaram-se os beijos. Elise novamente acariciou o
rosto de Jeremy. Este, sorriu, ainda tímido, mas extremamente feliz.
Ela, por sua vez, o encarou, e novamente, a razão
falou por si:
- Jeremy – sua voz era delicada, apenas um sussurro quase
inaudível – Em algum momento, não importa o tempo, a razão, sei que estarei pronta
para ser quem você deseja – procurou as palavras certas, as mesmas que havia
encontrada ainda em sua casa, e prosseguiu – Mas ainda não estou pronta, meu bem.
Um dia, talvez... – então as palavras morreram em sua boca sem serem ditas.
- Mas... – tentou argumentar Jeremy, confuso.
Elise o beijou novamente, e se afastou.
- Um dia... – gritou Elise por fim, e partiu.
[...]
Recostado no batente da porta, Jeremy sentiu-se
perturbado, sem respostas, reações, sem necessariamente entender o que havia
acontecido.
Fosse a exaustão, fosse a confusão mental, não
importa. Deixou que Elise partisse, e sequer fez menção de acompanha-la.
Um dia – pensou, ainda confuso, enquanto fechava a
porta atrás de si.
[...]
As horas eram eternas naquele momento. Deitada em
sua cama, virava-se de um lado para o outro, mas o sono sequer chegou até ela.
Com pensamentos a mil, revivia mentalmente aquele
abraço, aquele beijo.
Sacrifícios eram necessários. Palavras ditas selavam
destinos. Não importava. Não havia glórias nas palavras anteriormente ditas.
Não haveria louros à se conquistar, espólios ou glórias. Um sacrifício, ainda que
investido pela razão, sempre haveria de ter o gosto metálico, amargo e
indigesto da derrota.
Infeliz, Elise saboreava o gosto de suas palavras
nesse momento. Não era a razão, era o medo. O medo de atrelar-se ao
desconhecido.
Naquela noite, suas lágrimas escorreram até que os
primeiros raios do sol romperam pela janela do quarto.
Por fim, quando a cidade acordou de seu leito
adormecido, o cansaço apoderou-se de sua mente, e tudo se tornou escuridão.
Escuridão, angústia e sonhos vazios.