Jeremy, o Rei Perverso, com seus olhos castanhos,
sobrancelhas espessas, cabelos ao vento, respirou fundo, deixou-se envolver pelo
momento, e recomeçou a sua jornada.
Esparsas nuvens se estendiam pigmentando o céu naquele pôr-do-sol febril.
O véu da noite pacificamente começava a encobrir a cidade, e o alaranjado
lentamente se deixava substituir pela coloração púrpura. Não tardaria e a brisa
noturna, gentil, estaria acariciando a face do jovem rei.
Rei Jeremy, o Perverso. Há muito, assim o era, para si, e para outrem.
Governara seu mundo à sua maneira. Longe da plenitude mental, daria um passo
significante em sua jornada, e ciente de seus atos, governaria não apenas o seu
próprio mundo, mas sua própria vida, algo que há muito deixara de fazer.
Olhou fixamente o horizonte, gesto este, que repetiria exaustivamente ao
longo de sua jornada.
Pensativo, impassível, inquieto.
Respirando fundo, idealizou suas próximas palavras, virou-se e fitou-a nos
olhos, com seriedade. Eram olhos âmbar, diferentes de quaisquer outros que
estivera na presença de Jeremy. Olhos noturnos, que enxergavam além da própria
existência do rei.
Mas Jeremy não se deixou intimidar, e sem qualquer vacilo na voz, e como
uma tempestade que rompe os céus e desaba sem pudores, jogou as palavras ao
vento, quebrando qualquer vestígio de sua costumeira autodefesa, e indigestas,
lançaram-se ao ar, como dados que rolam para determinar o futuro de um jogo
invisível que apenas um jogador está jogando.
Então veio o silêncio, e com ele, o receio de que
Jeremy passara dos limites. Engolindo em seco, e incerto do que, de fato,
deveria esperar, apenas fechou os olhos por alguns instantes, e no fundo de sua
mente, flashes romperam numa espiral ascendente, fazendo-o vacilar, e perder a
atenção.
Nunca soubera o que fora dito.
Excêntrico Rei Jeremy, dizia ela.
Priorizava o diálogo aberto, sentimental, eloquente.
Sonhava alto, queria o mundo para si. Não era diferente das pessoas comuns.
Dentro e fora de seu mundo, fantasiava. Apenas um homem comum, ele, Rei Jeremy,
O Perverso.
Naquele fim de tarde lutou, arduamente, sem impor
limites à razão, deixou o coração falar por si, o som que há muito estava
guardado, e que agora, pulsava feroz em seu peito, ditando o ritmo da canção da
vida.
Impaciente, no fundo de sua mente, chocou-se com as
emblemáticas páginas em branco que narrava sua nova trajetória de vida. Sorriu,
tímido, como sempre fora, e no anseio crescente, sentiu novamente o gosto
metálico percorrer à boca. O gosto da realidade exposta, plena, mortal. Ode à
vida.
Ela o fitava com ternura, calada, apenas com seus
olhos brilhantes e noturnos que o mediam com cautela e curiosidade. Ele, ao seu
turno, de mãos trêmulas, deixou-se petrificar, e ainda com o silêncio o
ferindo, tentou expurgar aquelas palavras de si, mas fadado à cautela, preencheu
o vazio com sua habitual maneira de criticar-se.
As primeiras estrelas coroavam o cair da noite, e às costas de Jeremy, a
lua pálida reinava absoluta, ganhando o universo para si, acentuando ainda mais
o brilho intenso daqueles olhos noturnos.
Abraçado pelo luar, Jeremy, o Perverso, mostrou-se
novamente o homem que se tornara. Receoso, melancólico, louco.
Ele, Rei Jeremy, o Insano. Um perigo para si. Apenas
abraçado por seus próprios demônios. Temia a morte, a solidão, mas
principalmente, temia ferir novamente aqueles a quem tanto amava.
Assim o era, um homem febril em seus desejos, mas
desorientado em sua insistente maturidade infantil. Não queria afastar aqueles
a quem tanto queria próximos de si.
Jeremy apenas queria enterrar o passado, caminhando
para o topo de sua montanha imaginária, a mesma que rabiscava quando criança. O
topo do mundo, de um reino apenas seu, que governara e governaria à sua
maneira.
Naquela noite silenciosa, Jeremy, o Lunático,
divagou sobre as consequências de seus atos, e por mais que tentasse ponderar
suas palavras, queria evitar que o ritmo e a força das mesmas, e o risco de
destruir o elo criado.
Ponderado, trancou-se em seu próprio mundo, e seus
olhos castanhos fitaram o espelho, deixando perceber o valor e caos que seus
sentimentos pudessem criar.
Assim o era, Rei Jeremy, o Perverso. Governara o
mundo à sua maneira. Apenas um homem perdido em pensamentos e sentimentos,
apenas um maníaco momentâneo, criador de ilusões e desilusões desnecessárias.
Não para outrem, mas para si próprio.
Deixou-se distanciar do espelho, e envolto na
realidade que se estendia, viu-se fitando aqueles olhos noturnos novamente, e
diante de um sorriso sincero e espontâneo, sorriu também.
Era o desejo que o consumia. Era o medo, o anseio,
mas principalmente, o sentimento que há tempos guardava em seu próprio coração.
O amanhã estaria por vir, pensou.
Inquieto, Jeremy afastou-se, e observando-a de
longe, apenas lamentou ser o Perverso, quando desejava com todo o coração, ser apenas
o ideal.
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