Os dias se arrastavam à medida que o verão chegava ao seu fim. A
atmosfera representada pelos dias intermináveis e pelas longas noites quentes
era lentamente substituída pela iminente chegada do outono. Curtos dias e
longas noites já se espreitavam na rotina cotidiana do jovem rei.
As copas das árvores aos poucos transmutavam para sua habitual ausência
de vida. As folhas lentamente tingiam-se de amarelo-dourado, e vastos tapetes
se estendiam nas ruas da cidade. O clima cinza-opaco do outono aos poucos
ditava a paisagem da selva de pedras.
O outono não tardaria a chegar.
Jeremy, por semanas, enterrou-se em sua habitual e cotidiana rotina. Com
sua mente voltada para sua escrivaninha burocrática, debruçava-se nos papéis, e
na responsabilidade de governar sua própria vida, mas ainda que seu foco fosse
o trabalho, cedo ou tarde, via-se pensando em Elise.
Desde a abrupta declaração, não mais estivera na sua presença. Para o
jovem Rei, os desencontros, apenas avivavam as palavras proferidas e o
sentimento crescente que insistia em perturba-lo.
Mas seus afazeres não iriam desaparecer, e por questões de princípios e
obrigações, aprofundou-se no trabalho. Um reinado inteiro de obrigações
dependia de seus esforços, ainda que contra sua vontade, e Jeremy cumpriria seu
papel como fiel da balança, ainda que houvesse um desequilíbrio em sua própria
vida.
Elise, sem querer, tornara-se parte de Jeremy. Parte de uma mente que
lutava bruscamente para encontrar o equilíbrio e a paz.
Insistentemente, o Perverso via-se perdido em pensamentos vazios. Aqui e
acolá, pensava na vida, como uma roda da fortuna que sempre girava,
constantemente, e insistia transcender o auge, esbarrando-se no infortúnio de
sua própria queda.
Verdade seja dita, a vida jamais fora gentil com Rei Jeremy. De menino
sonhador, tornara-se senhor de si, ao tempo que não tinha em mãos as rédeas
para guiar-se através de escolhas fáceis.
Toda e qualquer escolha exigia sacrifícios de Jeremy, e o peso de suas
escolhas aos poucos se tornavam exaustivos. Estava farto de viver sob a égide
de dilemas intermináveis, mas não tinha escolhas, a vida traçara um caminho
pelo qual deveria percorrer sem hesitar, gostasse ou não.
O mundo parecia estar dessincronizado, mas de alguma forma, deveria
continuar, cedo ou tarde, encontraria seu lugar ao sol.
Exausto, sentindo-se como uma máquina programada para agir no piloto
automático, Jeremy inundou-se no trabalho, mas cedo ou tarde, estaria novamente
inquieto, revirando-se em sua cadeira, pensando em Elise.
[...]
Elise demorou-se por horas no banho.
Apoiada, com as mãos na parede, deixou a água deslizar por seu corpo,
tentando de alguma forma, apaziguar seus pensamentos. Estava inquieta havia
dias. Aquelas palavras a surpreenderam, e sua voz silenciou-se pela magnitude e
força que a atingira.
Não tinha a intenção de magoá-lo, sequer era de seu feitio deixar-se
calar diante de qualquer circunstância. Mas calou-se, e no abismo criado pelo
silêncio, abriu as portas para a dúvida, e para a imagem de uma pessoa que não
estava disposta a enfrentar os fatos que se posicionavam diante de si.
Pensava em Jeremy como um homem excêntrico. Por vezes, irracional, um
lunático prestes a perder o senso da realidade. Mas de repente, como um mar
furioso, impulsionando suas ondas contra as rochas, a calmaria se reinventava
nas tormentas, e a serenidade reinava absoluta naqueles olhos castanhos.
Como num passe de mágica, o olhar antes perdido, transformava-se com o
brilho da experiência de vida, e sentimentos puros emanavam onde o caos reinava.
Havia dor naquele olhar, ao mesmo tempo, esperança, e como um campo
gravitacional, todos os bons sentimentos o abraçavam, e com Elise, não era
diferente.
Naquele dia, não fora diferente. Elise sentiu o golpe, sentiu sua mente
ser lentamente puxada para a curiosidade, instigada a conhecer mais sobre o
homem de olhos castanhos e de olhar distante.
Sentiu o desejo, mas nos últimos instantes, libertou-se da armadilha, e
recuou. Nas palavras, nos sentimentos, no desejo do desconhecido.
Absorta, com os pensamentos a mil, lembrou-se do sorriso tímido, e tão
distante, viu-se ser atraída pela força espiritual e sentimental emanada de
Jeremy.
De volta ao presente, sentia-se confusa, queria expurgar tais desejos.
Eram caminhos proibidos, perigosos, e ela, tão somente ela sabia, era um
caminho sem retorno.
Fechou os olhos, e por minutos, limpou sua mente de tais pensamentos.
Quando se dera conta, novamente estava com sua mente voltada para Jeremy.
[...]
Jamais descobririam, mas a roda da fortuna girava sedenta, instigante, e sem
pudores, alterava o curso do destino. Para o bem ou para o mal, girava sem se
importar com os caminhos traçados.
Bem ali, naquele turbilhão de pensamentos recíprocos, iniciava-se a
verdadeira história de Jeremy e Elise.Com seus corpos tão distantes, suas mentes uniam-se. Um completando o outro. Peças de um estratagema que se anunciava tão perfeito, que até mesmo suas
imperfeições se completariam.
Duas partes de um. Nada mais importava, naquele momento, o eram.
Apenas para si próprios, o eram.
Apenas para si próprios, o eram.
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