domingo, 21 de julho de 2013

Jeremy, o Perverso – Capítulo II – Roda da Fortuna

Os dias se arrastavam à medida que o verão chegava ao seu fim. A atmosfera representada pelos dias intermináveis e pelas longas noites quentes era lentamente substituída pela iminente chegada do outono. Curtos dias e longas noites já se espreitavam na rotina cotidiana do jovem rei.

As copas das árvores aos poucos transmutavam para sua habitual ausência de vida. As folhas lentamente tingiam-se de amarelo-dourado, e vastos tapetes se estendiam nas ruas da cidade. O clima cinza-opaco do outono aos poucos ditava a paisagem da selva de pedras.

O outono não tardaria a chegar.

Jeremy, por semanas, enterrou-se em sua habitual e cotidiana rotina. Com sua mente voltada para sua escrivaninha burocrática, debruçava-se nos papéis, e na responsabilidade de governar sua própria vida, mas ainda que seu foco fosse o trabalho, cedo ou tarde, via-se pensando em Elise.

Desde a abrupta declaração, não mais estivera na sua presença. Para o jovem Rei, os desencontros, apenas avivavam as palavras proferidas e o sentimento crescente que insistia em perturba-lo.

Mas seus afazeres não iriam desaparecer, e por questões de princípios e obrigações, aprofundou-se no trabalho. Um reinado inteiro de obrigações dependia de seus esforços, ainda que contra sua vontade, e Jeremy cumpriria seu papel como fiel da balança, ainda que houvesse um desequilíbrio em sua própria vida.

Elise, sem querer, tornara-se parte de Jeremy. Parte de uma mente que lutava bruscamente para encontrar o equilíbrio e a paz.

Insistentemente, o Perverso via-se perdido em pensamentos vazios. Aqui e acolá, pensava na vida, como uma roda da fortuna que sempre girava, constantemente, e insistia transcender o auge, esbarrando-se no infortúnio de sua própria queda.

Verdade seja dita, a vida jamais fora gentil com Rei Jeremy. De menino sonhador, tornara-se senhor de si, ao tempo que não tinha em mãos as rédeas para guiar-se através de escolhas fáceis.

Toda e qualquer escolha exigia sacrifícios de Jeremy, e o peso de suas escolhas aos poucos se tornavam exaustivos. Estava farto de viver sob a égide de dilemas intermináveis, mas não tinha escolhas, a vida traçara um caminho pelo qual deveria percorrer sem hesitar, gostasse ou não.

O mundo parecia estar dessincronizado, mas de alguma forma, deveria continuar, cedo ou tarde, encontraria seu lugar ao sol.

Exausto, sentindo-se como uma máquina programada para agir no piloto automático, Jeremy inundou-se no trabalho, mas cedo ou tarde, estaria novamente inquieto, revirando-se em sua cadeira, pensando em Elise.

[...]

Elise demorou-se por horas no banho.  Apoiada, com as mãos na parede, deixou a água deslizar por seu corpo, tentando de alguma forma, apaziguar seus pensamentos. Estava inquieta havia dias. Aquelas palavras a surpreenderam, e sua voz silenciou-se pela magnitude e força que a atingira.

Não tinha a intenção de magoá-lo, sequer era de seu feitio deixar-se calar diante de qualquer circunstância. Mas calou-se, e no abismo criado pelo silêncio, abriu as portas para a dúvida, e para a imagem de uma pessoa que não estava disposta a enfrentar os fatos que se posicionavam diante de si.

Pensava em Jeremy como um homem excêntrico. Por vezes, irracional, um lunático prestes a perder o senso da realidade. Mas de repente, como um mar furioso, impulsionando suas ondas contra as rochas, a calmaria se reinventava nas tormentas, e a serenidade reinava absoluta naqueles olhos castanhos.

Como num passe de mágica, o olhar antes perdido, transformava-se com o brilho da experiência de vida, e sentimentos puros emanavam onde o caos reinava. Havia dor naquele olhar, ao mesmo tempo, esperança, e como um campo gravitacional, todos os bons sentimentos o abraçavam, e com Elise, não era diferente.

Naquele dia, não fora diferente. Elise sentiu o golpe, sentiu sua mente ser lentamente puxada para a curiosidade, instigada a conhecer mais sobre o homem de olhos castanhos e de olhar distante.

Sentiu o desejo, mas nos últimos instantes, libertou-se da armadilha, e recuou. Nas palavras, nos sentimentos, no desejo do desconhecido.

Absorta, com os pensamentos a mil, lembrou-se do sorriso tímido, e tão distante, viu-se ser atraída pela força espiritual e sentimental emanada de Jeremy.

De volta ao presente, sentia-se confusa, queria expurgar tais desejos. Eram caminhos proibidos, perigosos, e ela, tão somente ela sabia, era um caminho sem retorno.

Fechou os olhos, e por minutos, limpou sua mente de tais pensamentos. Quando se dera conta, novamente estava com sua mente voltada para Jeremy.

[...]

Jamais descobririam, mas a roda da fortuna girava sedenta, instigante, e sem pudores, alterava o curso do destino. Para o bem ou para o mal, girava sem se importar com os caminhos traçados.

Bem ali, naquele turbilhão de pensamentos recíprocos, iniciava-se a verdadeira história de Jeremy e Elise.Com seus corpos tão distantes, suas mentes uniam-se. Um completando o outro. Peças de um estratagema que se anunciava tão perfeito, que até mesmo suas imperfeições se completariam.

Duas partes de um. Nada mais importava, naquele momento, o eram.

Apenas para si próprios, o eram.

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