Estava inquieto.
O amanhã estaria por vir, pensara.
Nos empoeirados cômodos da casa, caminhou por horas a fio. Divagava, e no
ensejo de preencher as lacunas deixadas nas páginas em branco, viu-se velado
por sua própria imagem no empoeirado espelho.
Não havia exatidão em como chegara até aquele momento. As respostas
viriam, pensava, mas não conseguia transcender os limites de seus anseios.
Debatia-se em pensamentos descomunais, e novamente, sentia-se preso à uma teia
invisível de eventos que mudara para sempre sua própria história.
Era fato comum. O Perverso assim o era.
Questionava-se, instigava-se a encontrar as respostas que a vida lhe
roubara. O cansaço drenava suas energias, e naquele momento, apenas dúvidas
conseguiam preencher o coração do jovem rei.
Seus olhos varriam os cantos do aposento, e dentre um cigarro e outro,
tentava encontrar paz para seu espírito inquieto.
De todos os pensamentos que emanavam, havia uma pergunta que há muito o
perturbava.
O que é o amanhã, afinal? – sorriu amargamente.
Fora um jovem comum, repleto de sonhos, esperanças. Sonhava com as coisas
simples da vida. Uma profissão, um lar, uma família, um amor.
Mas eram tempos passados. Sonhos interrompidos. A vida lhe propusera
novos caminhos, e o fardo era pesado, até mesmo para um homem que enfrentara a
face da morte, e como um lunático, sorrira debochadamente. Mas a temia. Com
todo seu coração, temia encontrar o leito final da carne, e mais ainda, temia
encontrar apenas a escuridão em sua passagem final.
Como qualquer pessoa comum, não era perfeito. Instigar-se a viver era a
forma mais correta de pagar o preço pela independência, e pela ascensão. Era
sábio, mas no presente, apenas alternava entre a sanidade e a loucura.
- Um rei deve governar – pensou.
Nas iminentes crises, apegava-se ao amanhã, como uma forma de encontrar
paz espiritual, pois, que o diabo carregasse a todos, merecia isso. Um amanhã.
Um dia velado por um sol amarelo-limão, com um céu anil infinito sobre seus
ombros, e um futuro, ainda que, incerto, almejava uma vida repleta de respostas
que o tornariam novamente senhor de seu próprio destino.
O amanhã estaria por vir, Rei Jeremy.
Mas desde sua ascensão, o amanha tardara, e sequer chegara ao jovem Rei.
Dia pós dia, absorto em suas crises, olharia fixo para o horizonte, e
determinado, romperia noite à dentro em busca de uma alvorada que lhe fizesse
jus à vida que carregava em seu coração.
A madrugada estava gélida. Mas não se sabe. Em estado febril, era apenas
o seu próprio corpo rejeitando sua consciência. Faltando-lhe o ar, um crescente
nó ganhou vida em sua garganta. Novamente, Rei Jeremy se via entregue à mercê
de sua loucura.
As mãos trêmulas agarravam-se ao corpo, e seu coração pulsava firme,
determinado à sobrepor todo o caos que se instaurara na mente de Jeremy. Um
mente ferida, um coração vívido.
Ofegante, encravou as unhas contra a pele, e sangrou, com os músculos
tensionados, rígidos. Um leão ferido.
Como uma mãe abraça o filho, o desespero assim o fazia naquele momento.
Então, apegou-se aos últimos vestígios de esperança, e com todas as forças existentes
em sua alma e coração, feroz, como um animal encarcerado, lutou, mas quis o
destino que as pernas lhe faltassem, e deixou os joelhos se chocarem com o chão
frio.
Como que em câmera lenta, seu corpo tombou para a
frente, e seu rosto tocou o piso gélido.
Caído, com os olhos paralisados no piso branco, chorou em silêncio, deixando-se
tomar pelo pânico. Estava novamente
preso à sua própria armadilha. Não haveria movimentos para se safar, sequer
forças para levantar-se, pois, sua síndrome falava mais alto. O medo, o
irracional, a morte. Assim o era, cambaleante Rei Jeremy, o Insano.
Nunca soubera o tempo que estivera caído, apenas
sentiu as pálpebras se fecharam, com o peso de mil toneladas, e com os olhos
marejados, entregou-se.
[...]
“...a mesma velha
estrada de chão batido. Ipês amarelos e roxos que faziam coro à mata esmeralda.
À frente, um casebre de alvenaria, de tinta desbotada pelo tempo, com jardins
tomados pelas ervas daninhas, e mais à frente, apenas uma trincheira vazia Em
tempos remotos, as águas cristalinas serpenteavam aquela cova, levava a beleza
e vida por aquelas terras até encontrar-se com o rio principal.
Não mais. Apenas seu
templo quebrado, sua maldição.
Uma memória, um
arrependimento, uma esperança.
Cambaleante, Jeremy
adentrou a casa abandonada, e deixou-se e envolver pela escuridão do ambiente.
Dias, semanas, anos se
passaram, não saberia dizer. Mas ali, naquele lugar que um dia fora preenchido
com amor e esperança, com dias de glórias, o Perverso apenas encontrou
desolação.
Tempo e razão não mais
se faziam senhores do destino, e enfraquecido, o rei não conseguiu voltar pela
mesma porta que fora fechada anos atrás.
Tateou a escuridão, e
sentiu gélido ar preencher seus pulmões, e tocar sua face. Com suas feridas
expostas, sangrou solitário.
Buscou
desesperadamente por uma cura. Queria que aqueles olhos noturnos lhe encarassem
com ternura, e que aquelas mãos delicadas de menina-mulher o acariciassem, e
que um abraço quente, gentil e acolhedor, fosse apenas seu porto seguro, sua
razão e força.
Queria que ela, não
importa onde estivesse fosse tão somente sua.
Nada encontrou. Apenas
doses da fria realidade que se estendia à sua frente.
Mentalmente, escutou
as palavras, por ele, antes proferidas, e abraçou ao próprio corpo. Seduziu-se
com suas lamentações e murmúrios, enquanto gentilmente, acariciava suas cicatrizes,
novas e antigas.
Fora corrompido pelo
tempo, pelas brigas, pelas mentiras. Como um espelho que se estilhaça ao tocar
o chão, Jeremy estava quebrado, em mil pedações espalhados pelos anos.
Eram aqueles
olhos noturnos que tão somente conseguiam penetrar sua alma, e ver a real
essência, não do Rei Perverso, mas do homem Jeremy.
Era ela sua cura.
Rara, enigmática, mas arriscada.
Uma mulher bela, faces
gentilmente rubras, sorriso tímido, encantador. Atraente, de olhos noturnos,
castanho-amarelados, e seus longos cabelos dourados que caíam aos ombros.
Elise. A menina de
olhos noturnos. Elise, Asas Azuis, como era conhecida.
Mas era uma mulher
proibida. Livre, com suas asas, voando em espiral, aos céus, ao nada.
Submerso na escuridão,
lentamente o Rei Perverso fechou seus olhos, e adoeceu na sua insensatez, na
sua síndrome, na lacuna deixada pelo tempo.
Buscava abrigo para um
homem ferido, mas encontrou apenas fortalezas intransponíveis, e o silêncio
ensurdecedor.
Não mais estava em seu
reino. Mas diante da estrada da morte. Um caminho negro, infinito, para além do
mundo dos vivos. Paralisado, apenas observou calado, enquanto todo o mundo se
fez desaparecer pela explosão de luzes que se chocou diante de seus olhos
castanhos. Petrificado, apenas observou calado, com seus olhos fitando com
horror e espanto o centro da explosão de luz, no fim, fechou seus olhos e
deixou-se envolver na claridade...”
[...]
Estava caído em seu quarto, no piso frio. Sentindo mil agulhas perfurarem
seus músculos rígidos. Suava frio, e tremia. Exausto, seus olhos de ressaca
apenas fitavam os primeiros raios da alvorada iluminar o aposento.
Por minutos permaneceu imóvel, apenas ouvindo o som de sua própria
respiração. Quando as energias reencontraram seu corpo, levantou-se,
deixando-se abraçar pelas vertigens.
O amanhã finalmente chegara.
Estava desorientado, mas lembrava-se. No fim, quando abraçado pela luz,
viu-se a fitar aqueles belos olhos âmbar, e eles transmitiam a paz, a esperança
e a morte do Jeremy.
Os olhos que o observaram, eram os mesmos que significavam sua redenção
ou sua queda.
Estava disposto ao risco. Era dado o momento de finalmente encontrar o
desejado amanhã.
Exausto, com olheiras profundas, e barba por fazer, Jeremy, por um momento, deixou-se levar por suas fantasias, e fortalecido, iria buscar a cura para sua doença.
Exausto, com olheiras profundas, e barba por fazer, Jeremy, por um momento, deixou-se levar por suas fantasias, e fortalecido, iria buscar a cura para sua doença.
Era a Síndrome do Coração Partido
Mas finalmente havia encontrado sua cura, e pelos
Deuses que zelavam por sua própria vida, iria até o último vestígio de sua vida
conquistar o que sempre buscara.
Seu porto seguro.
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