quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Jeremy, O Perverso - Capítulo V - Uma palavra de mil sílabas

Jogado à mercê de sua insanidade, Jeremy deixou-se levar pelo pânico, e sem energias, perdeu os sentidos. Sonhou com a desolação que destruíra seu mundo. No fim, a morte o encarava com olhos frios e noturnos. 

Seu grito ecoou por quarteirões. 

[...]

Fragmentos de cristais rubro-espelhados. Tortuosos caminhos desvirtuados por um choque de realidades. Faça-se o caos, mas não se esqueça. Jamais se esqueça de mim. 


Fiz da sorte, minha própria ruína. Durante semanas ou vidas inteiras, não sei dizer, me tornei Deus de meu próprio universo. Criação através do caos.


 Tempo imutável. Fragmentado pelas lembranças inalteráveis. Mas se um dia me perguntar, quem sou eu, serei eu mesmo a responde-la?  


“Se - como dissera Padre Callahan - uma palavra de mil sílabas”. 


Serei grato, um dia, por ter me tornado cria e criador, caça e caçador. Mas não serei o mesmo. Não mais.


Bela mulher, apenas me ouça. Sonhei alto, e ainda criança, almejei ser o homem no topo das montanhas. Assassinei a criança com minha razão, e me perdi no labirinto do coração.


Relutante coração partido, menina inquietante. 


O menino no topo das montanhas tornou-se o homem que pulou no abismo do desconhecido, e fora beijado pela morte. 


Minha querida! Você e tão somente você, tem essa essência rara, e por rara, entenda-se por beleza comum no Jardim dos Deuses. Caminhos opostos para pessoas que não se conhecem, mas que são parte um do outro.

Apenas mantenha esse sorriso encantador de menina-mulher enquanto eu não estiver por perto, e se a sorte, destino ou qualquer outra palavra de mil sílabas possa conspirar a meu favor, estarei ao seu lado.


Sou um desconhecido que caminha entre o orgulho da sobriedade e a queda da insanidade. 


Mas esteja firme, não importa o tempo, a razão, o tempo. Seja meu porto-seguro, que um dia encontrarei. Pois não há sensação mais pacificadora do que sentir o conforto de sua presença. 


Rolem os dados, e que a roda da fortuna gire numa espiral de desejos e sonhos. Não sucumbirei à escuridão enquanto guardar dentro de meu peito e de minhas lembranças, o brilho vívido de seu olhar intrigante e hipnotizador. 


Hoje, ofereço a ti minha cicatrizes, para que um dia, possa vê-las curadas. Minha e tão somente minha, bela Elise. Sinto-me grato, por tê-la, ao passo, que nada conquistei, exceto seu sorriso dócil de mulher liberta. 


"Se", palavras de mil sílabas. "Tempo", palavra de infinitos fragmentos de vidas passadas.


Hoje, sou apenas o guardião de presságios incertos, de destino desconhecido, mas meu caminho trilhará sob luzes douradas de um vasto e límpido céu azil enquanto carregar comigo a imagem do seu olhar. 


Se um dia pensar em mim, olhe para o topo das montanhas, e lá estarei. Velando por sua segurança, e por sua felicidade. Mesmo que isso signifique o sacrifício de um homem beirando à loucura instaurada numa mente confusa.


Minha razão está defasada, mas ainda posso oferecer meu coração. Eis a verdadeira essência do homem que sou.


Quando terminar de ler estas palavras, não serei o mesmo. Sequer estarei por perto.


Distante, isolado, ferido. Mas ainda serei parte de uma lembrança que minha mente possa apenas ter criado, mas sempre existirá um "se" para reconstruir com mil sílabas, um significado para meu próprio mundo.


Um mundo que governarei à minha maneira. Mas um rei não deve governar sozinho. 


Esteja em paz, enquanto busco a minha própria. 


De todo coração, e com amor, Jeremy.

[...] 

Elise lera e relera as duas últimas frases escritas à mão. Com seu coração sendo esmigalhado por sentimentos que jamais sentira, trouxera a carta para próxima de seu peito, e suspirou. 

Por longos meses, Elise tentara encontrá-lo a todo custo, em vão. 

Quando recebera a carta, Jeremy havia desaparecido havia dois meses. Quando dois,  tornaram-se seis, e seis tornaram-se doze meses, pensou que estivesse morto. 

Um ano havia se passado.

Não havia montanhas para se observar, mas ainda sim, dia pós dias, elevava seus olhos em direção aos céus, e por instantes tinha certeza de que ele estaria olhando por ela. Não importa onde estivesse, Rei Jeremy cumpriria sua promessa. 

Sorriu timidamente, tentando assimilar o golpe. 

“Se”... Uma palavra de mil sílabas, mas de apenas um significado: 

O anseio de ter em seus braços, aquilo que renegou quando tivera sua chance.

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