Recostado em seu trono. Imponente. Como nos desenhos
rabiscados em sua infância. Apenas uma figura mórbida no topo das montanhas.
O cemitério de concreto agora se afoga no estágio
natural de inércia sob seus pés. Flutuando sobre sonhos de pessoas comuns, seu
olhar varre o horizonte, e seu rosto parece se enrijecer, desfigurando-se no
misto de insanidade e dor, enquanto, parcialmente, o neon-mercúrio brilha
sangrento através de seus olhos, ao tempo que projeta poças de cor marrom no
labirinto negro rabiscado de branco.
Ele sorri, desdenha de seu reino. Estúpida ironia.
Do alto observa. Elevam-se aos céus os gigantes de
pedra. Inertes formas abstratas, tentando tocar as nuvens. Jamais conseguirão.
A imensidão do desconhecido os transformará em pequenos degraus para o
impossível desejo de tocar os anjos que acima de todos estão.
Apenas outra dose. Sua mentira tóxica. Mais um gole
no uísque, outro trago no cigarro, e aquela pequena parcela de felicidade
inventada rasgará sua garganta, e eclodirão os demônios sedentos de sua mente.
Não importa.
As pálpebras começam a pesar toneladas, e a visão,
turva. Ele esvazia os pulmões, deixando o fétido e saboroso teor da nicotina
preencher o ar com a essência putrefata que tanto o alivia nesse momento.
Mais um gole, queimando sua língua, aquecendo seu
interior como o crepitar de uma floresta em chamas.
Sua gargalhada ecoa forçada, e os fragmentos do copo
arremessado com todo seu desprezo, tornam-se agora adagadas cristalinas
espalhadas pelo chão.
Dessa vez, paz química ou mentiras não o farão
melhor. Seu reflexo na porta de vidro o enoja. O espelho
distorcido da realidade criada através do caos.
Suas mãos
agarram a cadeira, e a violência excede os limites da razão, enquanto o objeto
choca-se com a porta. Novamente tenta despertar o espírito que está adormecido
dentro de si, mas o que se vê, são apenas estacas de madeira e vidro que se
espalham pelo quarto.
Ele caminha, com os pés nus, pintando de escarlate o
chão. Sangra, e em seus mais prazerosos delírios, não encontrará um motivo para
se controlar.
Não importa.
Agora sacia a sedenta ira diretamente da garrafa.
Anestesiado, não sente mais o fervor da bebida lhe agarrar no calar da noite.
Na ausência de som, façam-se canções com os braços que agora varrem a estante
de livros e fotos.
Então ele observa os olhos do velho pai no
porta-retratos. O olhar que ainda insiste em ignorá-lo, mesmo após a morte
fechá-los para sempre. Ele cospe as palavras ao vento, e amaldiçoa aqueles
olhos a fitá-lo:
- Malditos
sejam, esbraveja - Todos os afortunados que sucumbiram ao leito final, malditos
sejam. Curvem-se perante seu rei, desgraçados.
Cerram-se os punhos, os dentes, e um sorriso
perverso lhe percorre a face.
As mãos agarram a estante de mogno, e desvencilhadas
dos pecados mortais, unem-se à força da confusão. O móvel choca-se contra o
piso, enquanto o caos começa a reinar.
Um por um, objetos são arremessados,
quebrados, pisoteados, enquanto suas próprias lágrimas agora parecem ser
jogadas para fora de seu próprio corpo. Forçadas a sair, para que sua ira possa
reinar absoluta no caos que se instaurou naquela mente tão perfeitamente
insana.
Mundos que se chocam em perfeita sintonia com a
realidade. Ele tentará avançar para o corredor, e suas pernas irão ceder.
Ajoelhe-se perante o Rei. Ajoelhe-se perante sua
maldição, Jeremy.
As vozes bailam em sua mente, como asas azuis em
campos esmeralda. As nuvens negras se unem ao asfalto, e as risadas frenéticas
perfuram seus ouvidos. A canção do senhor da morte.
As nega, levando as mãos aos ouvidos. Encerram-se as
canções, mas seus olhos castanhos, vidrados, podem ver.
Imagens de vidas passadas. Fotos de realidades não
existentes. Apenas flashes, sangue e morte.
À sua frente, os olhos de âmbar encontram os seus
próprios. Mas não há vida naquele olhar. Os cabelos dourados estão pigmentados
de vermelho, enquanto o próprio sangue escorre pela pele pálida. Um sorriso de
canto, lábios azuis, quase enegrecidos, com os ombros caídos, e os braços
jogados junto ao corpo, e este, repleto de chagas que se deixam mostrar através
das roupas rasgadas de Elise.
Ele agora rasteja até ela, e a beija nos lábios.
Metálico sabor de sangue. Segura-a junto ao seu próprio corpo, e a embala,
tomado pela canção do senhor da morte.
Inspira fundo, e junto aos ouvidos de Elise, diz em
tom inaudível:
- Hoje não, meu bem. Talvez um dia...
Gargalhando como um louco, embala-a, tentando
apaziguar os temores. Sem forças, fecha os olhos, e a imagem se corrompe.
[...]
Deitado em posição fetal, próximo ao próprio vômito,
Jeremy olha as paredes de seu quarto.
Uma aquarela do caos. Seus músculos estão rígidos, e
Jeremy apenas saboreia amargamente o gosto de bile, álcool e lágrimas.
As risadas estão mais distantes, e o mundo começa a
parecer menos distorcido, mas ainda há confusão em sua mente. Os fantasmas de
sua culpa ainda o atormentam. Eles precisam morrer para que Jeremy viva.
Rastejando, procura novamente doses de sua mentira.
Não sabe, mas está a poucos centímetros de uma overdose fatal. Em meio ao caos,
tateará os objetos ao chão, porém, não mais encontrará.
Salvo pelo próprio caos que ele mesmo criou.
Agonizando, será consumido pela rejeição, pela
culpa.
Sentimentos de vidas passadas e há muito adormecidas
em suas memórias.
Não mais.
Ao fechar a porta atrás de si, Jeremy abriu todos os
caminhos conhecidos na sua memória. Caminhos trilhados dentre ascensões e
quedas.
Finalmente, havia descoberto que a culpa seria sua
parceira pela eternidade. Sucumbiria perante a ela, e sua morte, a morte de Rei
Jeremy seria motivada tão somente por ela.
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